Para a edição do NotiAndina anterior queríamos que saísse algo sobre a complexa   realidade   nacional que estamos vivendo. Isto fazemos agora, através da web internacional, com outros dados que nos ajudam a contextualizar e compreender, um pouco mais, esta tão complexa realidade que envolve o país.

Muitos pontos de vista se nos apresentaram neste segundo mês sobre o que se tem vivido  de greve em Colombia e que tem diversas dificuldades, um processo que já vem de 30 anos ou mais. Com a greve nacional que se iniciou em 28 de abril, com manifestações massivas a nível nacional, com mobilizações constantes e bloqueios que funcionam como pontos de concentração de manifestações permanentes, até o 26 de maio, ocorreram 2.577 bloqueios de estradas/ruas. Os departamentos com maior quantidade de bloqueios foram: Huila, Quindío, Meta, Valle del Cauca, Nariño e Norte de Santander. Até 26 de maio, aconteceram em 794 municípios dos 32 departamentos de Colombia: 5.264 concentrações, 1.998 marchas, 554 mobilizações e 21 assembleias.

Esta movimentação vai passando por fases e, de uma greve nacional com os antecedentes manifestados no ano anterior – 2020, se transformou em uma conversação nacional para o governo do presidente Duque.

COMO CAUSAS MAIS PRÓXIMAS SE MENCIONAM:

- É claro e visível o não cumprimento do governo nacional sobre os acordos de paz, e esta leitura tem sido clara desde que foi eleito. Votaram nele para impedir que a esquerda chegasse à presidência. Mas o seu triunfo não foi muito distante das outras votações.

- O Estado colombiano vem descumprindo acordos nacionais pactuados anos atrás. Isto foi criando uma lógica de greve constante para recordá-lo do anterior e assim, sucessivamente. A greve de 2019 criou certamente uma grande desconfiança.

- A isso juntou o crescimento da fome, a pobreza, o desemprego e a falta de futuro. De tal forma que a situação se converteu numa “verdadeira explosão social”. Logo que aconteceu esta greve, o governo abriu o diálogo para os partidos políticos, inclusive um novo que se chama “movimento da esperança”; e o modo como foi respondendo, era desatinado: não escuta do povo, represálias do presidente Uribe diante de decisões tomadas pelo Presidente Duque e, o que tem mostrado o Estado é uma “repressão” como há muito tempo não se via no país.

É verdade que os manifestantes fizeram atos de violência e vandalismo também contra o serviço úblico e outros bens privados e pessoais, mas a maior repressão foi exercida por parte do estado nos lugares de manifestação, com saldos lamentáveis pelas pessoas mortas, vítimas desaparecidas, danos a bens...

ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DESTA EXPLOSÃO SOCIAL

- Em 26 de maio haviam ocorrido 2.577  pontos de imobilização chamados  “bloqueios”, com expressões muito significativas e inesperadas para o mesmo comitê de greve.

- O Estado registra, a partir da atitude altamente repressiva, a maioria de eventos em Cali e Valle del Cauca, com o desaparecimento de pessoas dentro do protesto social. Em poucos dias se registraram desaparecimentos cujo número continua crescendo.

- Tudo isto complica mais a situação (agressões e feridos) também para as forças do Estado, atos de violência sexual, censura da imprensa alternativas. Os meios de comunicação (Caracol e RCN) teceram narrativa contra os indígenas, segundo analista da Comissão de Justiça e Paz  Colombia-CRC.

- Os direitos humanos foram muito atingidos. Assim, a greve nos pôs numa repercussão negativa por todos os danos que causou.

- A maioria das pessoas envolvidas nas mobilizações é de jovens que estão dispostos a continuar com elas, porque já não têm nada a perder pela mesma realidade em que vivem, a ponto de que, no bloqueio, têm algo de comida “garantida pela ação comunitária”. Se forem para suas casas não têm o que comer.

 A juventude que está nas ruas são filhos do conflito  que não sabem nada do agora. Não há garantia de futuro para muita gente nem por acesso a universidades nem por trabalho. A criminalidade vem se voltando sobre os jovens. Matam-nos, desaparecem com eles desde os anos 80, começando por Medellin e passando logo por outras cidades colombianas.

Tudo isto é efeito do que há mais de 30 anos vimos cultivando no país. Já a presidência do Sr.Gaviria, cujo lema foi “bem-vindos ao futuro”, abriu o mercado e a economia neoliberal abriu crises. Muitas empresas nacionais tiveram que ser fechadas porque não podiam competir. Privatizou-se a saúde e logo isto foi reforçado pelo presidente Uribe em seus 8 anos de governo. Assim que, estamos vivendo esse futuro anunciado com uma constituição de 30 anos que abriu muitas esperanças, pois se reconheceram diferenças, liberdades civis, direitos fundamentais, tutelas; mas economicamente o modelo resultou em crises...

IMPLICAÇÕES NEGATIVAS DESTAS MANIFESTAÇÕES

- A zona onde mais fortemente se sentiu a problemática é no Valle, porque no Pto. De Buenaventura havia muito alimento para animais. Então, por que estamos comprando comida fora enquanto o camponês da zona  está condenado ao cultivo da coca? De fato, houve vários saques.

- A economia ficou mais afetada ainda. Várias empresas tiveram que despedir mais trabalhadores.

- Não existe um único centro de representação nesta situação. O Comitê de greve não representa a maioria de todos os colombianos sem trabalho nem aos jovens na rua. Então, se necessita pensar na abertura de mesas de diálogo tanto nacionais como territoriais.

Em Cali, depois de muita desconfiança como a que se dera antes, o papel do Arcebispo Dario Monsalve é como um atenuante positivo.

QUE SAÍDAS SE VEEM?

É necessário abordar sérios problemas no país:

O da fome. Derrubar a reforma tributária já foi uma conquista da greve. Mas, claro, com isto não se soluciona o problema. O Estado necessita uma reforma estrutural de base.

Problema do emprego. O governo tem que trabalhar pela geração de emprego, a empresa privada, mas de empregos dignos. Não se pode continuar com salários de fome. Isto atravessa também a corrupção em que vivemos.

Problema do estudo. O governo deu matrículas a custo zerado para as classes sociais 1 a 3. Mas com isto não amplia a cobertura. Há zonas do país que não têm acesso à universidade.

Problema de saúde. Derrubar a reforma da lei de saúde também é necessário reconhecer como uma vitória prematura da greve. Mas voltamos ao mesmo. A imensa maioria da população não tem acesso aos serviços de saúde. As pessoas já começam a morrer por falta de mínimas atenções sanitárias. Isto, unido ao colapso da pandemia, aguçou ainda mais o problema.

QUE TEM FEITO O GOVERNO, SEGUNDO A CONTEXTUALIZAÇÂO DA COMISSÃO JyP?

O governo nacional jogou a mesma carta política tradicional e isto não dá muita esperança. Não há um interlocutor. O Presidente Duque deu respostas fora de uma mesa de conciliação e se contradisse em relação a algumas decisões pactuadas.

EM NÍVEL DE IGREJA E DE VIDA RELIGIOSA, QUE AÇÔES PODEMOS EMPREENDER?

Há muito  por fazer de nossa parte:

- Acompanhar à sociedade nesta conjuntura.

-Denunciar o desrespeito aos DDHH.

- Dar vida e presença a partir da Comissão de Justiça e Paz – CRC e, oxalá, unidos a outros organismos.

- Ser participante de garantia, gerar confiança pelas mediações. Para isto se necessita estar inseridos/as na realidade das mobilizações.

- Aceder a leituras/ olhares globais e integrais da realidade. Não podemos continuar fazendo jogo com as polarizações nem às notícias ajeitadas dos canais mais visíveis de nossa informação. O Evangelho é bem claro, está a favor do mais desprotegido.

- Diante da desesperança que já começa a apoderar-se de uma boa parte da população, o que se pode fazer? Haverá que inventar algo distinto para que o governo se decida a abrir a porta. Não se poderia fazer uso do boicote?

- Aprofundar-se na dimensão fé e política e ter ações concretas.

- Ajudar a que outras pessoas possam fazer uma análise mais imparcial da realidade e  a partir dos mais afetados.

- Recusar a violência no cotidiano e nas ruas.

- Fazer uma leitura orante da realidade...e confiar em Deus que acompanha seu povo.

São João nos convida cada dia a “amar-nos uns aos outros como nos ama Jesus”, quem nos diz: “Já não os chamo servos, mas amigos...” Jesus não faz distinção de pessoas. Somos convidados a cantar um cântico novo de reconciliação, de paz, de justiça em nosso país; e isto nos pede acolher sua palavra e transitar no cotidiano por caminhos concretos do amor, para o que Monsenhor Rueda Aparicio propunha três sendas:

* O respeito à vida de toda pessoa, sem distinção alguma.

* O diálogo sincero e fraterno, fomentando a capacidade de escuta e de empatia para poder acolher a diferença. Saber fazer silêncio para escutar desde o mais profundo.

* E a busca do bem comum, partindo dos mais pobres e vulneráveis, tanto no campo como na cidade.

Agradecemos o carinho e a proximidade fraterna de Graciela e Dayse, como a de tantas irmãs ante este panorama complexo que vivemos no país e que, por momentos, provoca uma dor de pátria que já leva muitos anos em nossa querida Colombia. E nos pede ações concretas, a todos nós e em bem de todos, sobretudo ante as vítimas de tanta iniquidade... Que o Espírito Santo de Deus nos invada, abra caminhos de dignidade para todos e nos conceda sua Paz.

Hijas de Jesús em Colombia

           

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