O grande dom de Cristo para a Igreja é a COMUNHÃO. A vida em Cristo é a COMUNHÃO. “Quem me come, viverá por mim”, quer dizer: VIVERÁ PARA A COMUNHÃO. Sem a COMUNHÃO o Corpo de Cristo está raquítico, sem graça, sem alento, sem fortaleza, moribundo. Cristo chorou por Jerusalém ao ver que a galinha não pôde reunir sob suas asas um povo disperso e dividido. E nós, cristãos batizados na Comunhão da Trindade, e alimentados com o Corpo de Cristo, deveríamos igualmente chorar. Santa Mônica chorou quando implorava a conversão de seu filho Agostinho. Os batizados não cessarão de derramar lágrimas até que as indecisas Igrejas cristãs não abandonem seus medos, sutilezas e prevenções, e todos nos abaixemos, imitando Cristo, até conseguir um povo unido, um único Corpo, e com ele, a desejada Comunhão. Somente uma Igreja unida, voltará a atrair ao encontro de Cristo e à fé tantos irmãos nossos desconfiados, no século XXI.
A vida muda com a felicidade da Comunhão, de comungar e habitar nele. É preciso esta mudança que é puro dom de Deus: “Eu vos asseguro: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós”. A Comunhão está escondida no profundo de cada coração que crê. Quem não vibra quando a invoca ou reza por ela? Porém, costuma estar tão escondida, tão perdida entre os mil conchavos e entretenimentos de nossa estressada vida, que mal a deixamos viver e se desenvolver. Algumas vezes pretende levantar a cabeça, para nos recordar que nascemos do Espírito e vivemos no Corpo da Igreja, porém não a deixamos crescer. Os partidarismos e particularismos de nossos grupos ou famílias, que absorvem tanto tempo e energias vitais, não deixam que a Comunhão viva além da intimidade muito íntima do pobre e sobmetido coração do crente. E fica por isso mesmo. Não provoca urgências. Por causa disso haveremos de chorar, e de chorar até o cansaço. "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia".
A festa da Comunhão está de luto há séculos. Domingo passado vos pedia festa e alegria no coração de Deus Trino. Hoje vos peço lágrimas. Creio que precisamos parar, antes de celebrar a Solenidade do Corpo e do Sangre de Cristo. Paremos, e atualizemos a consciência de nossos pecados de divisão e de enfrentamentos. Não nos conformemos em criar uma anômala imagem de unidade. Paremos, é tempo de honestidade e sinceridade para com Deus. Vejamos o modo de fazê-lo:
1. Come e bebe. Não tema ser um pecador. Prepara-te com o perdão oferecido, renovando teu coração, sem deixar de crer que é Deus quem te faz esse dom. Deixa de crer que tu ou teu grupo sois os protagonistas do caminho cristão. Deixa-te conduzir pelo ‘Amor dos amores’. Não te feches no teu, nos teus.
2. Toma consciência, ao te ver rodeado de irmãos reunidos em seu Nome e em seu seguimento e na adoração eucarística, de que formas parte de um Corpo, seu Corpo, embora apareça quebrado e ferido. E chora de emoção, e por amor, até que vejamos consumada a unidade do Corpo. Que tuas lágrimas sejam hoje tua mais bela e emocionada oração, e tua mais serena colaboração à Comunhão oferecida pelo Senhor. Chora sem medo, como Jesus. As lágrimas podem ser um precioso dom ao redor da eucaristia.
3. São Paulo te diz: "Há um só pão, e nós todos, embora muitos, somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão." A diversidade não te estranhe. Não te ofendas por ela. O diverso é belo, e é saudável e santo. Cada um é único ante Deus. Não busques a uniformidade. Ela é castradora para os filhos livres e amados de Deus. Crê em uma Comunhão de diferentes. Comunhão poliédrica da qual fala o Papa Francisco.
4. Ele é o Senhor que permite nossas lágrimas no meio do deserto e dos dragões, e que nos alimenta. É maravilhoso deixar-se alimentar e fortalecer na fé, no dom de Deus, no serviço amoroso e livre aos homens, aos pobres. Dt 8. “Não te esqueças do Senhor teu Deus que te fez sair da casa da escravidão, e foi teu guia no vasto e terrível deserto, onde havia serpentes abrasadoras e escorpiões. Foi Ele quem te alimentou no deserto, com o maná que teus pais não conheciam”.
5. Há tanto por fazer. Há tantos irmãos chamados a este dom e que andam desnutridos, com fome física e de Cristo. Há tantos refugiados, tantos marginalizados, tantos excluídos que clamam por unidade na justiça, e uma vida digna. Necessitamos recuperar o soluço das lágrimas pela Comunhão. Lágrimas que são dom de Deus. Lágrimas que pedem perdão, conscientes do drama da divisão e do sofrimento dos pobres. Lágrimas que atraem aos batizados em Cristo o dom dos dons, a Comunhão. É Ele quem nos liberta, pacifica e alimenta. ‘Garantiu a paz em teus limites e te dá como alimento a flor do trigo.

Antonio García Rubio, pároco de Nossa Senhora do Pilar em Madrid

0
0
0
s2sdefault